Concurso cartórios. A situação excepcional de parturiente, cuja data do parto coincide com a semana da 2ª fase do concurso, autoriza de forma extraordinária a candidata fazer sua prova em nova data. Julgamento com perspectiva de gênero
Delegatários de serventias extrajudiciais que realizam concursos de delegação.
O que observar
Remarcar prova de candidata gestante/lactante quando coincidir com periparto. Prazo mínimo: 45 dias após parto.
Tese prática
Candidatas gestantes/lactantes em concursos de cartórios têm direito à remarcação extraordinária de provas quando a data coincide com período periparto, com prazo mínimo de 45 dias pós-parto. A dignidade humana e proteção à maternidade prevalecem sobre isonomia formal do edital, aplicável a todos os concursos de delegação de serventias extrajudiciais.
Especialidades afetadas?Siglas das serventiasRI Registro de ImóveisRCPN Registro Civil das Pessoas NaturaisTN Tabelionato de NotasTP Tabelionato de ProtestoRTD Registro de Títulos e DocumentosRCPJ Registro Civil das Pessoas JurídicasRTDPJ RTD + RCPJ na mesma serventiaGERAL ato geral, sem especialidade determinadaTODAS alcança todas as serventias“RTD + RCPJ” e “RTDPJ” são a mesma serventia: o nome muda conforme o estado.
Embora a decisão seja sobre caso concreto de candidata, fixa tese generalizável e obrigatória para comissões de concurso de cartórios em todo o Brasil (PCA classe relevante para extrajudicial). Impacta procedimento administrativo recorrente (concursos de delegação) e estabelece obrigação clara às comissões, com fundamento em Resolução CNJ e perspectiva de gênero. Utilidade prática média: orienta conduta futura mas não altera estrutura de funcionamento das serventias.
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Procedimento de Controle Administrativo
Concurso cartórios. A situação excepcional de parturiente, cuja data do parto coincide
com a semana da 2ª fase do concurso, autoriza de forma extraordinária a candidata fazer
sua prova em nova data. Julgamento com perspectiva de gênero
Em razão do avançado estágio de gravidez, a candidata pedia ao CNJ medida liminar para suspender
a prova escrita e prática do Concurso Público de Provas e Títulos para Outorga de Delegações de Notas e de
Registro do Estado de Alagoas - Edital de abertura nº 01/2023.
Se não fosse possível suspender o certame, pedia a remarcação da prova apenas em seu favor.
A candidata estava aprovada na prova objetiva do certame e convocada para fazer as provas escrita
e prática. Ocorre que essa 2ª etapa aconteceria dia 22/10/2023. A data provável do parto estava marcada para
o dia 18/10/2023, com variação possível de uma semana antes e uma semana depois.
A parturiente solicitou à comissão do concurso outra data para realizar a prova, mas o pedido foi
indeferido, sob o argumento de que a remarcação frustrava a isonomia das regras do certame.
No entanto, a questão envolve o direito à igualdade e à dignidade humana, que devem ser
interpretados em harmonia com os direitos da mulher. Entre os princípios constitucionais em conflito,
princípio da isonomia nos concursos públicos e princípio da dignidade humana, deve preponderar o segundo.
A natureza destes direitos foi traduzida pelo STF, na tese de Repercussão Geral nº 973, em
julgamento no âmbito dos concursos públicos. A proteção à gestante, à família, à saúde e a liberdade
reprodutiva são direitos fundamentais, incorporados constitucionalmente ao patrimônio jurídico das mulheres,
bem como da própria sociedade indiretamente.
O CNJ também já reconheceu, em ratificação de liminar, em caso semelhante, a necessidade de
tratamento diferenciado para candidata gestante, assegurando-lhe o direito de remarcar a prova oral nas
mesmas condições e características conferidas aos demais candidatos.
O estágio avançado de gravidez da candidata impedia a realização da prova escrita e prática na data
marcada. No momento da instauração do PCA no CNJ, a candidata encontrava-se na 38ª semana de gestação.
Depois, a candidata juntou certidão de nascimento do filho e declaração de nascido vivo, informando
que o parto ocorreu no dia 10/10/2023, por cirurgia cesárea.
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O Relator considerou que o pedido principal, de suspender a aplicação da prova escrita e prática, não
era possível, pois causaria diversos prejuízos aos demais candidatos além de danos à administração pública.
Porém, concedeu parcialmente a tutela de urgência, nos termos do art. 25, XI, do RICNJ,
determinando à comissão do concurso que remarcasse a prova apenas em relação à candidata, de forma
presencial e nos mesmos termos proporcionados aos demais candidatos, observado o prazo mínimo de 45 dias
corridos entre o dia do parto e a nova data.
A decisão teve como base a Resolução CNJ nº 492/2023, que determina a adoção da perspectiva de
gênero nos julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário.
O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero tem o objetivo de superar os obstáculos que
impedem a igual dignidade entre mulheres e homens, em todos os cenários da vida pública e privada.
A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher exige que
os Estados-Partes adotem medidas concretas de proteção à maternidade.
A Convenção assegura proteção especial às mulheres durante a gravidez nos tipos de trabalho
comprovadamente prejudiciais para elas. Além disso, não considera discriminação as medidas especiais de
caráter temporário para acelerar a igualdade entre o homem e a mulher.
Não considerar a condição especial da mulher gestante/lactante no livre acesso aos cargos, empregos
e funções públicas fere a proporcionalidade e os art. 5º, inciso I, e art. 37, inciso I, da Constituição Federal.
Por maioria, o Plenário do CNJ, ratificou a liminar. Após, converteu o julgamento em definitivo, em
razão dos argumentos do voto do Relator. Vencidos, quanto à ratificação da liminar, os Conselheiros Vieira
de Mello Filho, Salise Sanchotene, Giovanni Olsson e o Presidente, os quais entendiam que a medida não era
razoável, geraria ônus excessivo aos cofres públicos e violaria os princípios da eficiência, igualdade e
confiança legítima.
A candidata poderá realizar a prova como lactante, mesmo que não tenha informado esta condição
no momento da inscrição no concurso.
Para não gerar prejuízo aos demais candidatos, a comissão do concurso pode disponibilizar o
resultado preliminar da prova escrita e prática somente depois que a candidata fizer a prova.